“Não faltando alimento, já temos tudo”

A história do Brasil está baseada na vinda da povoação européia, mas poucos sabem da importância da cultura indígena nesse contexto. Os índios habitavam o país antes mesmo da migração portuguesa, há mais de 500 anos. Você sabia que o hábito de tomar banho todos os dias, algo característico da atual população, é uma herança da comunidade indígena? Essa é uma das milhares de contribuições vindas deste povo que fazem parte do cotidiano.

Nesta sexta-feira (19) é comemorado o Dia do Índio. Para saber a realidade em que eles vivem na região, a Rádio Cidade foi até o município de Major Gercino, cerca de 50 km de Brusque. Na reserva indígena Guarani vivem 76 pessoas. Outras duas famílias ainda não foram contabilizadas pela Funai, pois chegaram recentemente.

Lá, a equipe foi recebida pela professora Márcia Macena (28), que leciona a matéria de artes na pequena e modesta escola na aldeia. Ela explica que sua função é ensinar às crianças a cultura indígena e a prática do artesanato, que é realizada em sua disciplina.“Aqui, nós saímos, vamos para o mato para ver a importância da natureza, a não jogar lixo no mato, outras coisas”, afirma ela.

Marcia comenta que todo artesanato feito pelos alunos é vendido para turistas e o dinheiro arrecadado revertido para a escola. A unidade estudantil tem o apoio da secretaria de estado da Educação, que ajuda com merenda e material escolar. Macena comenta, ainda, que os alunos de primeiro até o quinto ano estudam de manhã e do sexto ao oitavo no período da tarde.

O Dia do Índio, disse Marcia, antigamente não era comemorado, pois simbolizava a data da morte dos indígenas. Porém, hoje a razão é outras e simboliza lembrança de tristeza. “Hoje nem dia mudou tudo, comemoramos naturalmente. Fazemos uma festa ao estilo Guarani mesmo, com danças indígenas e outras ações”, explica a professora. Uma semana cultural é realizada, com o objetivo de mostrar a realidade do índio. Um dos mitos da cultura indígena, o Curupira, é preservado e muitas crianças na aldeia temem a vinda do personagem quando não se comportam.

Julio Mariano (74) é indígena e vende peças de artesanato. Os itens que custam entre R$ 20 até R$ 50, são uma forma de sustento de sua família. Para ele, a cultura indígena de hoje é a mesma de antigamente. “os índios Guaranis se modificaram um pouquinho com o passar do tempo, mas a nossa educação nunca deixemos de lado. O que tínhamos antigamente não podemos esquecer e nem deixar de lado”, comenta ele.
Já o pajé Antur Benite (70), que é o líder espiritual da aldeia, explica que as pessoas angustiadas são aconselhadas e orientadas a viver em comunidade, juntamente com suas famílias. Ele afirma que é católico e o conselho mais importante que dá a seu grupo é trabalho e cultivo da terra. “Plantação, cultivar o alimento da lavoura. É o mais importante para o povo”, comenta o líder espiritual da aldeia.

Nos dias atuais, é bastante comum ver a história do indígena se confundir com a do chamado homem branco. Isso por conta da interferência de outras civilizações, que, praticamente, apagou a indígena. O pajé acredita que a chegada do ‘homem branco’ destruiu boa parte da essência dos índios. “Todos na aldeia são 50% índio e 50% brancos”, diz ele.

Apesar do avanço e da comodidade que a civilização externa à aldeia, a do chamado homem branco, vive em termos de tecnologia, na aldeia dos Guaranis de Major Gercino esse é um cenário ainda distante, embora muitas das casas já possuam televisores e energia elétrica, por exemplo.

Mas para o experiente líder espiritual da aldeia, tudo isso é muito supérfluo e, de certa forma, desnecessário. Há outras necessidades que, na sua visão, são mais importantes.“Se não existissem essas coisas, estaríamos vivendo como queríamos. Aqui o que eu quero que não falte é alimento. Não faltando alimento, já temos tudo”, finaliza ele.

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